Gail Sheehy
Tudo quanto puderes fazer, ou creias poder, começa. A ousadia tem gênio, poder e magia.
— Goethe
O COMEÇO DA PASSAGEM DA MEIA-IDADE
O meado da década dos trinta anos é literalmente a metade da vida. Não soam trombetas, é claro, mas começam os receios. Bem lá no fundo, começa-se a registrar uma mudança naquelas percepções instintivas de segurança e de perigo, da existência de tempo ou de sua falta, da vida a ser vivida e da estagnação, da identidade pessoal e dos outros. Tudo começa com uma vaga sensação…
Atingi alguma espécie de meridiano em minha vida. Seria melhor eu fazer uma revisão, reexaminar por onde estive e reavaliar como irei gastar meus recursos de agora em diante. Por que estou fazendo tudo isso? Em que realmente acredito?
Por baixo dessa vaga sensação existe a verdade, ainda não percebida, que há uma descida na vida, o outro lado da montanha, e que tenho apenas tanto tempo, antes de escurecer, para encontrar minha própria verdade.
Enquanto esses pensamentos ganham força, interrompe-se a continuidade do ciclo da vida. Eles surgem numa década que pode ser chamada, no sentido mais profundo, de Década do Prazo Fatal. Em algum momento entre os 35 e os 45 anos, se o permitirmos, a maioria de nós passará por uma plena crise de autenticidade.
Vemos primeiro a escuridão no fim do túnel. A apreensão é muitas vezes súbita e aguda. Não sabemos o que fazer com ela ou mesmo o que “ela” é; nenhum jovem acredita realmente que um dia chegará ao fim. Da primeira vez que surge essa ideia, independentemente da solidez de nossa saúde ou de nossa posição social, ficamos em geral intensamente preocupados com sinais de envelhecimento e decadência prematura.
Isso tem sentido? Racionalmente, não. Se nossas apreensões fossem lógicas, o medo aumentaria à medida que envelhecêssemos e chegássemos mais perto da morte. Geralmente isso não acontece. Quando as pessoas se reestabilizam do outro lado da passagem da meia-idade, o espectro da morte afasta-se para longe em nossa mente. Falam muito a respeito dele e comparam estratégias de proteção, mas já então “aquilo” é uma coisa real, e não uma medusa particular, impronunciável.
Esse capítulo explora algumas das mudanças interiores previsíveis que a maioria de nós pode esperar sofrer na Década do Prazo Fatal: primeiro a visão da escuridão; a desmontagem de nossas estruturas, depois o vislumbre da luz e a reunião de nossos pedaços numa renovação. O restante do livro descreverá como homens e mulheres tateiam em busca da autenticidade, cada qual à sua maneira, tentando encontrar sua própria verdade. Ou então fugindo dela, bloqueando-a até alguma coisa explodir.
Não pretendo dizer com isso que as pessoas que sofrem a crise mais severa sempre conseguem chegar ao mais inspirado renascimento. Mas as pessoas que se deixam deter, tomadas pelas questões verdadeiras, abaladas e forçadas a um reexame – essas são as que encontram sua validade e que florescem.
Vendo as trevas no fim do túnel
A súbita modificação na proporção de segurança e perigo que sentimos em nossa vida raramente é prevista, motivo pelo qual as pessoas muitas vezes sentem-se deprimidas no início dessa passagem. Quando éramos animados pelo otimismo dos primeiros anos, podíamos facilmente nos desviar do lado escuro, passando de um canal de atividade vigorosa para outro. Nossa seiva corria celeremente. Ordinariamente, nossa potência se expandia em todas as esferas – corpos mais fortes, melhor sexo, maiores realizações, mais amigos, salários mais altos – e, ah, como adorávamos exibir nossos poderes! Era como se não fizessem senão aumentar. Defendiam-nos bem contra a verdade inadmissível de que ninguém tem tudo para sempre.
Perguntem a qualquer pessoa com mais de 35 anos quando foi que ela começou a se sentir velha.
Em geral, notamos primeiro as rachaduras em nossas cascas físicas e as vemos distorcidas, como nos espelhos de um parque de diversões. Um cômico deu uma resposta tão ridícula quanto qualquer outra. – Vi que estava na meia-idade quando acordei de manhã e encontrei um fio de cabelo de 60 centímetros crescendo em minha orelha.
Aquilo de que fugimos no espelho temos forçosamente de ver em nossos amigos, nossos filhos, nossos pais. São eles os “outros” que registram o fato de que em breve “você” estará diferente.
Você vai a uma reunião. Seus colegas de escola agora têm títulos. Você escuta a narrativa de suas realizações e vê que são expressivas, mas não fica impressionado. O que o deixa obcecado é a calva do presidente da turma. Você ouve falar de fulano; ele morreu como um passarinho enquanto dançava numa boate.
No toalete, você, uma mulher que há pouco fez 35 anos, se descobre olhando para mulheres quarentonas, para as massas de celulite em suas coxas. Fica a imaginar se elas ainda se despem na frente dos maridos.
Seu estado de espírito se modifica caprichosamente. Otimismo desenfreado no café da manhã, fossa no almoço. Brinca consigo mesma a respeito de agir como “uma mulher maluca na menopausa”. Mas você não acredita em sua própria piada, é claro. Você é uma mulher que ainda menstrua regularmente e, aos 38 anos, as mulheres estão no auge sexual. Ou você é um homem e, afinal de contas, Charles Chaplin ainda fazia filhos aos 81 anos.
É paradoxal que justamente quando chegamos à flor da idade, percebemos que há um lugar onde a vida termina.
Mudança na percepção do tempo
Ao entrar nessa década de crise, cada um de nós pode esperar uma distorção em nossa percepção do tempo. Caímos de repente naquele ponto do tempo entre o fim de nosso crescimento e o começo do envelhecimento. Tal como as apreensões relacionadas com a morte, esse abalo no sentido do tempo cria novas perturbações no início dessa passagem. O solavanco, sentido por homens e mulheres, é mais ou menos assim:
— O tempo está passando depressa. O tempo tem de ser vencido. Posso realizar tudo com que sonhei antes que seja tarde demais?
Para as mulheres que não trabalham, o tempo passa repentinamente a ser visto como longo:
— Vejam quanto tempo ainda há pela frente! Depois que as crianças forem embora, o que vou fazer?
Numa entrevista, a psicóloga social, Bernice Neugarten, confirmou essa ampla diferença na mudança da percepção do tempo para os dois sexos. A situação profissional está profundamente envolvida nas mudanças de personalidade para os homens, e a saúde é para eles um sinal de idade mais forte do que para as mulheres. As mulheres tendem muito mais a ver um campo de oportunidades inimaginadas abrindo-se diante de si nos anos da meia-idade. Uma sensação inicial de perigo e medo pode ceder lugar a uma revigoração. Para a maioria delas, ainda há muitas coisas a fazer pela primeira vez.
A mudança na percepção do tempo força cada um de nós a uma importante tarefa na meia-idade. Todas nossas ideias acerca do futuro precisam ser reequilibradas em torno da ideia do tempo que ainda resta para viver.
Mudança na sensação de agilidade versus estagnação
Antes de sermos capazes de proceder a esse reequilíbrio, o problema do tempo deixará a maioria de nós com um sentimento de imobilidade. Nossa perspectiva deturpada encurta tão falsamente o futuro que é possível que venhamos a criar nossa própria inércia, dizendo “É tarde demais para começar alguma coisa nova”. Isso parece fastio, mas como Barbara Fried explicou tão bem, temos aqui fastio misturado com difusão do tempo. São coisas diferentes. O fastio rotineiro pode ser curado procurando simplesmente experiências novas. A difusão do tempo é um mal-estar mais profundo, que se origina de nossa súbita e radical falta de confiança no futuro e de uma falta de disposição para acreditar em que exista qualquer coisa digna de ser buscada.
A confiança é o fundamento da esperança, formada em nossa primeira infância. Estamos agora de volta às tentativas, julgando mais uma vez o equilíbrio que podemos esperar entre nossas necessidades e imaginando quando, ou se, elas serão atendidas. Só que agora não há ninguém que cuide de nós. Nós somos a nossa esperança. E não podemos com muita segurança confiar em nossos próprios recursos para agilizar o futuro, até descobrirmos quem é que desejamos ser do outro lado do meridiano. Esse é o círculo. Não é vicioso; é o carrossel que conduz à revitalização. Temos de percorrê-lo à toda volta, estagnar nele, antes de sermos aguilhoados a fugir e fazer uso do tempo que sobra. – Sim, eu posso mudar. Não é tarde demais para começar aquilo que deixei de lado!
É paradoxal que ao sairmos da crise, ainda que verdadeiramente tenhamos menos tempo de sobra, desapareçam a depressão e o mal-estar. O futuro volta a ser visto numa perspectiva mais correta, porque lhe infundimos então a fé de nosso objetivo redefinido.
Mudança na percepção de nossa identidade dos outros
Mais ou menos agora, seu filho o vence no tênis pela primeira vez. Ou pergunta se ele e a namorada podem levar seus sacos de dormir para o fundo do quintal. Você passa a noite nervoso, imaginando o que eles fazem? Na manhã seguinte, faz algumas perguntas indiretas. Mas pela expressão dele, fica claro que seu filho sabe que seu interesse é menos paternal do que lascivo.
Sua filha quer ir às compras. Você olha para as vitrinas e se vê nas mesmas roupas. Dentro da loja, sua filha olha chocada para você, que experimenta um vestido super sexy. – Ah, mamãe, que coisa horrível!
É paradoxal que as crianças adolescentes sejam totalmente intolerantes em relação aos pais maduros, por terem as mesmas fantasias românticas que eles.
Você busca consolo junto a seus pais e constata que eles se debilitaram. Já não enxergam tão bem. Preferem deixar que você dirija o carro. Quando um pai contrai uma doença incurável, quem é o próximo da fila? Você, com 40 anos, é arremessado abruptamente para a cabeça da sequência das gerações, seguido apenas por seus próprios filhos.
Estando ainda intacto seu próprio papel de filho em relação a seus pais, você se sente seguro. Com a morte do pai ou da mãe, está exposto. “Hoje em dia há um tremendo número de pessoas que veem de perto a morte pela primeira vez, com o falecimento de um dos pais, quando já têm de 35 a 40 anos” observa Margaret Mead. “Isso é um fenômeno inteiramente novo no mundo”. A morte do pai ou da mãe viúvos tem sido documentada como um dos mais contantes pontos de crise na evolução da imagem que o indivíduo faz de si mesmo.
Sua curiosidade de olhar-se no espelho do parque de diversões atinge as raias da morbidez. Antes, você nunca lia os necrológios; agora passa a notar a idade e a doença. Pela primeira vez, no que poderia ser uma vida espetacularmente saudável, você se torna um aprendiz de hipocondríaco.
Na meia-idade, as pessoas dizem muitas vezes: “Todos meus amigos estão morrendo de câncer”. Não são todos os amigos, mas mesmo que um ou dois estejam isso representa um choque. Ouvimos falar tanto a respeito de nossa maior longevidade, e como é que tantas pessoas ficam gravemente doentes aos quarenta e tantos anos? Como a mortalidade infantil foi sensivelmente reduzida nos últimos anos, um número maior de pessoas que teriam morrido por ocasião do nascimento sobrevive à infância, mas não são fisicamente tão fortes como nossos avós tiveram de ser para sobreviver. Consequentemente, como indicam as estatísticas oficiais sobre o prognóstico de vida, há uma população de meia-idade cada vez maior e por isso uma maior quantidade de pessoas sujeitas a morrer na maturidade.
Se uma súbita tragédia desse tipo tivesse acontecido a um amigo ou parente quando você tinha 25 anos, sua reação seria de pena, mas de uma natureza protegidamente remota. A pestilência teria sido deles, um acidente da vida. Agora, é um alerta para que você aproveite melhor a vida antes que seja tarde demais. E ainda bem que isso acontece.
É paradoxal que quando a morte se torna personalizada, uma força vital ganhe energia. Nas mandíbulas desse perigo está a oportunidade, a possibilidade de nada menos que um segundo batismo.
A desmistificação do sonho
As mudanças de percepção refletem-se mais vividamente na maneira como o sonho é visto agora. Qualquer que seja sua ocupação, você não pode deixar de se dar conta da disparidade entre a visão de si próprio aos vinte anos e a realidade aos 40. Se você é uma mãe de 40 anos, seu objetivo daqui a pouco escapulirá de seus braços. Se você é um executivo, os psicólogos de empresas que proclamam “nenhum homem com mais de 45 anos deve estar numa posição de linha” logo estarão falando a respeito de você. Dizendo que você deveria ser mandado marcar tempo numa função burocrática. Dizendo que só querem jovens ambiciosos, cuja única preocupação seja o fracasso. Que se danem esses filosóficos homens maduros que desejam dar uma contribuição social.
A afirmação que você conquistou ou não conquistou até os 40 anos lhe dirá em que time você pode esperar jogar o jogo de sua vida. Não importa qual seja sua posição, você ficará a pensar: “Então, isso é tudo?”
O mesmo desapontamento toma conta de todos, quer do operário ao vice-presidente, e é fundamental lembrar-se disso, para que você não mergulhe no poço sem fundo da autocompaixão. Studs Terkel compilou as biografias de americanos em mais de cem ocupações para seu extraordinário livro Working (Trabalho), e um denominador comum que ele encontrou foi a preocupação com a idade. “Talvez seja esse o espectro mais assustador para os homens e mulheres que trabalham: a obsolescência planejada de pessoas, a par da obsolescência planejada das coisas que fabricam”.
Você tem de parar de acreditar que todas as riquezas da vida advirão com a consecução das metas de sua imagem idealizada. Se sua imagem ideal evidentemente não vai ser alcançada e se você se recusa a reajustá-la para baixo, você entrará no caminho da depressão crônica. Por outro lado, se você percebe que jamais virá a ser o presidente de um grande banco, você pode se contentar em ser o gerente da sucursal em sua cidade predileta ou talvez encontrar seu maior prazer em se tornar técnico de um time da segunda divisão ou fundar um coro.
Se sua imagem ideal foi atingida, o que acontece depois que o sonho se torna realidade? Se você não o substitui por um novo sonho, poderá não sobrar nenhuma esperança para o futuro, embora possa haver muito o que temer. Por outro lado, você é liberado, por seu sucesso, para tirar velhas paixões da prateleira, para abrir aquele restaurantezinho curioso onde sempre desejou ser cozinheiro, para se dedicar à composição de canções populares, para ajudar as minorias sociais ou para se dedicar à paisagística. Conheço pessoas que na meia-idade se voltaram para todas essas coisas. São pessoas muito mais efervescentes do que seus colegas que preferem permanecer com o sonho antigo e realizado, e que aos cinquenta anos se veem literalmente espremendo-o em busca de seiva vital.
É paradoxal que numa época em que a medicina ampliou nossa longevidade, a psicologia empresarial pareça tentar reduzir nosso período de vida útil.
A incerta busca de autenticidade
Enquanto nossos vislumbres distorcidos do lado escuro se transformam em convicções e o sonho desaponta nossas esperanças mágicas, qualquer papel que tenhamos escolhido parece estreito demais, qualquer estrutura de vida limitada demais. Qualquer marido, esposa, mãe, pai, filho, mentor ou divindade em quem tenhamos depositado nossa fé pode vir a ser sentido como parte do arco de ferro que nos comprime.
A perda da juventude, a redução das forças físicas que sempre vimos como natural, o propósito esmaecente dos papéis estereotipados, e através dos quais até então nos identificamos, o dilema espiritual de não termos nenhuma resposta absoluta – qualquer um desses choques ou todos eles podem atirar-nos numa crise. Mas em todos nós, antes de finda essa década, a crise torna possível mudanças radicais de personalidade. E um certo grau de modificação da personalidade será provavelmente inevitável.
Essas mudanças podem permitir a uma mulher afirmar-se, a um homem dar vazão às suas emoções, e a qualquer um de nós deixar que nossas estreitas definições ocupacionais e econômicas se dissipem. Quando isso acontece, estamos prontos para procurar um sentido de propósito verdadeiramente nosso. O próprio ato de chegar a esse caminho pode preparar o terreno para uma nova intimidade, nova e livre, entre nós e aqueles a quem amamos.
Primeiro, porém, permitir que o lado escuro se abra provocará a libertação de uma legião de demônios. Tudo aquilo que não ficou resolvido em passagens anteriores voltará à tona para nos perseguir. Até mesmo lascas do totem arcaico da infância virá à superfície. Partes sepultas de nós próprios exigirão incorporação ou pelo menos que façamos o esforço de vê-las e abandoná-las.
Esses demônios podem levar-nos a infernos privados de depressão, promiscuidade sexual, busca de poder, hipocondria, atos autodestrutivos (alcoolismo, toxicomania, acidentes automobilísticos, suicídio) e violentas oscilações de ânimo. Tudo isso está bem documentado nos anos da meia-idade. A crise da meia-idade tem sido também usada por psiquiatras como explicação para o fato de tantas pessoas altamente diligentes e criativas se liquidarem em meados dos trinta anos. Mais dramática ainda é a constatação de que podem morrer disso.
Se não admitirmos o lado escuro, o que é provável que vejamos?
Somos egoístas.
Somos cobiçosos.
Somos competitivos.
Somos medrosos.
Somos dependentes.
Somos ciumentos.
Somos possessivos.
Temos um lado destruidor.
Quem tem medo de crescer? Quem não tem? Porque se e quando começamos o processo de reexame de tudo quanto pensamos, sentimos e defendemos, no esforço de forjar uma identidade que seja autenticamente nossa e apenas nossa, damos de cara com nossa própria existência. Há um momento – um momento imenso e precário – de imobilizante terror. E, nesse momento, a maioria de nós quer recuar o máximo possível, porque continuar a avançar significa enfrentar uma verdade de que há muito suspeitamos:
Estamos sós.
Somos as únicas pessoas com nosso conjunto de pensamentos e nossa trouxa de sentimentos. Qualquer outra pessoa pode prová–los, através da partilha da experiência ou da conversa, mas ninguém pode realmente digeri–los, jamais. Nem esposas nem maridos, ainda que sejam capazes de terminar nossas frases; nem mentores nem chefes, ainda que tenham toda boa-vontade em realizar suas próprias ambições através de nós; nem mesmo nossos pais.
As identificações infantis com os pais nos proporcionam a camada mais primitiva de proteção imaginária – a proteção daquele ditador-guardião que chamei de vigia interno. É essa proteção internalizada que nos dá uma sensação de insulação e que, mesmo nesses anos de maturidade, nos impedem de enfrentar face a face nossa própria individualidade absoluta. Olhamos para nossos companheiros, nossos filhos, nosso dinheiro e nosso sucesso, na esperança de que eles deem continuidade à proteção dos provedores de nossa infância. O poder ilusório do vigia interno nos levou a crer que se não esticarmos o pescoço, se não pusermos à prova todo o nosso potencial, estaremos de certa forma isolados do perigo, do fracasso, da doença, da morte. Mas isso é uma ilusão.
Tentar manter essa ilusão viva, através daquilo que os psiquiatras chamam de “identificação incompleta” apenas nos tranquiliza em relação à ideia de separação, de individualidade. Nada faz, na verdade, para nos proteger de sermos separados.
Rebelamos e lutamos contra todas essas verdades. Recuamos e estremecemos. Perseguimos o doce pássaro da juventude. Paramos. Estagnamos. E finalmente chegamos a conhecer o inimaginável: o lado escuro está dentro de nós. Tão forte se torna a sensação de colapso interno que muitos de nós perde a vontade de impedi-la.
As pessoas cujas biografias coletei podem dizer, aos 44 ou 45 anos: – Realmente passei por um inferno durante alguns anos, e estou acabando de sair dele. – Mas sua capacidade de descrever como era “aquilo”, é muitas vezes limitada. As pessoas que se encontram bem no centro da passagem da meia-idade podem sentir tamanho pânico que as únicas descrições que conseguem dar são de “viver num estado de animação suspensa” ou “Às vezes penso de manhã se vale a pena acordar para a vida”. Ser um pouco mais introspectivo parece perigoso.
Um desenhista industrial de 43 anos foi capaz de articular os sentimentos que provocam a vertigem emocional nesse período. – O que descobri no ano passado foi quanta coisa eu suprimi do que é inadmissível para mim mesmo. Sentimentos que sempre me recusei a admitir estão vindo à superfície de uma maneira que não desejo mais impedir. Estou disposto a aceitar a responsabilidade pelo que eu realmente sinto. Não tenho de fingir que esses sentimentos não existem a fim de realizar um modelo daquilo que eu deveria ser.
Segundo suas próprias admissões, este homem está entrando na crise da meia-idade. – Estou realmente chocado agora com a amplitude e a qualidade desses sentimentos – sentimentos de medo, de inveja, de cobiça, de competição. Todos esses chamados maus sentimentos estão realmente surgindo onde eu os posso ver e sentir. Estou espantado com a energia incrível que todos nós despendemos suprimindo-os e não admitindo a dor.
O consenso da pesquisa corrente é de que a transição para a meia-idade é tão crítica quanto a adolescência e que em alguns sentidos é mais perturbadora. Será possível valer a pena viver no meio desse caos e ver tudo? Será que vale a pena que ele se torne real?
Inclino-me a aceitar a resposta dada num livro infantil, The Velveteen Horse. Certo dia, o jovem coelho pergunta ao Cavalo Magro, que vinha vivendo entre os animaizinhos durante algum tempo, o que é real. E dói?
– Às vezes – disse o Cavalo Magro, pois sempre dizia a verdade. – Quando você é REAL, não se importa de se ferir.
– Isso acontece de uma vez só, como quando dão corda na gente – ele perguntou – ou pouco a pouco?
– Não acontece de uma vez só – respondeu o Cavalo Magro. – Você se torna. Leva muito tempo. É por isso que não acontece muitas vezes com pessoas que se quebram com facilidade, ou têm quinas afiadas, ou que têm de ser guardadas com cuidado. Em geral, quando se chega a ser REAL, a maior parte de seu cabelo já foi embora, levada pelo amor, seus olhos caem, você fica com as juntas moles e todo quebrado. Mas essas coisas não têm a menor importância, pois quando se é REAL não se pode ser feio, a não ser para as pessoas que não compreendem.
Do desmantelamento à renovação
Enquanto o dilema dessa década é a busca de autenticidade, a tarefa consiste em passar por um desmantelamento, em direção a uma renovação. O que está sendo desmontado é aquela estreita imagem que juntamos até então, dando-lhe um feitio destinado a agradar à cultura e às outras pessoas.
Trata-se daquela forma ou feitio que nos apressamos a encontrar aos vinte anos, a identidade que desenvolvemos a fim de nos estabilizar, e em torno da qual construímos o sistema de vida do começo dos anos trinta: o executivo ambicioso, a supermãe que sempre dá um jeito, o político intrépido, a esposa que pede permissão. Não podíamos então nos dar o luxo de agir segundo nossa própria autoridade interna. A promessa implícita era a de que se realizássemos um bom trabalho e permanecêssemos dentro daquela fórmula clara e limitada, seríamos apreciados, recompensados e viveríamos eternamente.
O choque desse ponto crítico está em descobrir que a promessa era uma ilusão. Aquela imagem estreita e inocente está realmente morrendo, tem de morrer, a fim de dar lugar à personalidade plenamente expandida que assumirá todos os nossos lados, tanto o egoísta, o medroso e o cruel quanto o expansivo e o terno – tanto o “mau” como o “bom”. Não importa quão abaladora seja essa colisão com nossos impulsos suprimidos e destrutivos, a capacidade de renovação dentro de cada espírito humano chega a ser espantosa.
Não se trata de um desmantelamento ou de uma renovação. São ambas as coisas ao mesmo tempo. Permitindo essa desintegração, assumindo nossas partes suprimidas e até mesmo as indesejadas, cada um de nós prepara, no nível mais profundo, a reintegração de uma identidade que é verdadeiramente a nossa. Estamos livres para procurar a verdade acerca de nós mesmos com mais vigor e assim ver o mundo numa perspectiva mais real.
No caminho para essa liberdade, temos de cumprir um certo luto pela antiga “identidade moribunda” e assumir um posicionamento consciente com relação à nossa própria mortalidade inevitável. É essa visão amadurecida que nos impedirá de seguir servilmente o que a cultura deseja que façamos e de esbanjar nosso tempo na procura da aprovação dos outros, atendo-nos às suas regras. Além disso, quando agimos com base nesse conhecimento, podemos ser menos defensivos com relação aos outros.
“Levem de volta suas regras tolas!”, podemos gritar finalmente. “Ninguém pode determinar o que é bom para mim. Já vislumbrei o pior, e agora posso me dar o luxo de saber tudo quanto existe para se saber. Eu sou minha própria e única proteção. Pois a verdade é que esta é a minha única viagem pela vida”.
Através do processo de desmantelamento, então, criamos condições para a mais grandiosa expansão. Ao fim desse período podemos incluir dentro de nossas fronteiras tudo aquilo que somos e tudo aquilo que experimentamos – e reavaliá-lo. Isso é a renovação.
Descendo a ladeira do outro lado
Uma solução consiste em penetrar na escuridão e explorá-la. Fique preso no atoleiro durante algum tempo. Tire uma licença-prêmio da vida e torne-se um delinquente maduro, ou enfrente a natureza numa viagem de canoa pelo rio cheio. Esta é uma maneira de conhecer suas próprias profundidades e possivelmente se revigorar por esse conhecimento, aproveitando-o para fazer o máximo de nossas vidas.
Outras pessoas parecem passar voando por essa escala sem nenhuma pausa. Sua solução consiste em continuar a negar o lado da descida. Jogar mais tênis e dar mais voltas na pista de corrida, organizar festas ainda maiores, fazer melhores transplantes de cabelos e operações plásticas mais radicais, encontrar parceiros mais jovens para a cama. Isso não quer dizer que tal busca de alegria não valha a pena ou que parceiros mais jovens não possam ajudar a revitalizar uma vida sexual estagnada, mas as pessoas que confiam unicamente nessas saídas podem estar perdendo na troca algo ainda maior que uma oportunidade crítica de desenvolvimento pessoal. Desconsiderar as mudanças cruciais que se operam sob o pano força uma desnatação de toda a experiência. O preço final é a superficialidade.
Há outras pessoas ainda que bloqueiam essa passagem num frenesi de atividade compulsiva. Empresários superativos, políticos ou locomotivas da sociedade, por exemplo, parecem não ter tempo para uma crise de meia-idade. Estão ocupados demais em abrir uma nova linha de negócios naquele ano, organizar jantares ou concorrer a cargos mais elevados. Consomem-se com coisas externas pela simples razão de temerem mergulhar naquilo que poderia ser a pobreza de significado dentro delas.
O problema é que as questões interiores sufocadas num período tendem a saltar para fora no período seguinte, com maior força ainda. Enfrentar uma crise de meia-idade pela primeira vez aos cinquenta anos é algo de dantesco (muito embora as pessoas possam passar pela prova). Ou o desenvolvimento pode ser simplesmente interrompido para a pessoa que continua a usar antolhos. Sua visão se torna mais estreita, ela se mostra mais indulgente consigo mesma e finalmente, sem graça e amargurada.
“Se um homem passa por um período relativamente vazio enquanto se está processando a transição da meia-idade”, escreve Levinson, “seu crescimento se limitará. Muitos homens que não sofrem uma crise aos 40 tornam-se pesados e perdem a vitalidade de que necessitam para continuar o desenvolvimento no resto dos estágios adultos”.
A única maneira, finalmente, de fazer com que o medo do lado da descida desapareça consiste em permitir que ele penetre em nós. Quanto mais cedo permitirmos que as verdades desse período tomem conta de nós, mais depressa elas poderão ser integradas a nosso otimismo juvenil e nos reestabilizar com uma força verdadeira.
As palavras mais importantes na meia-idade são “correr frouxo”. Deixar que as coisas aconteçam. Deixar que aconteçam ao parceiro. Soltar os sentimentos. Permitir que as mudanças aconteçam.
Não podemos levar tudo conosco quando embarcamos na viagem da meia-idade. Estamos indo para longe. Para longe de exigências institucionais e das agendas de outras pessoas. Para longe de valorizações externas, em busca de uma validação interna. Estamos abandonando papéis e assumindo o eu. Se eu pudesse dar a cada pessoa um presente de despedida nessa viagem, seria uma barraca. Uma barraca que conduza a experiências de vida, aqui e ali. O presente de raízes portáteis.
Para chegarmos à clareira mais além, temos de viajar sem bagagem pela incerteza. Toda segurança falsificada que ainda possuíamos, resultado de superinvestimento em pessoas e instituições, tem de ser jogada fora. O vigia interior tem de ser expulso dos controles. Nenhuma força externa pode dirigir nossa viagem de agora em diante. Cabe a cada um de nós encontrar um rumo que seja válido por si mesmo. E para cada um de nós haverá a oportunidade de emergir renascido, autenticamente diferente, com uma maior capacidade de amar a nós mesmos e de afagar outras pessoas.
(Este texto foi extraído do livro “Passagens: crises previsíveis da vida adulta” de Gail Sheehy. Editora Francisco Alves, sétima edição, Rio de Janeiro, 1982.).