Quem sou eu? Quem é o outro?

Quem sou eu? Quem é o outro?

Flávio Hastenreiter

O lugar da alma é onde se tocam o mundo interior e o exterior. Porque ninguém se conhece, a si mesmo, se é só ele mesmo e não também o outro, ao mesmo tempo. (Novalis).

Quem sou eu? Obviamente, esta é uma pergunta de uma complexidade imensa, mas que é possível de ser entendida, pelo menos em parte, através de nossos esquemas pessoais e nossas relações cotidianas. Somos quem somos porque estamos o tempo todo atuando. Atuar aqui não diz do sentido de falsidade, mas da maneira como lidamos com a realidade. Nós somos atores da nossa história, e como qualquer trama de nossa vida, seja ela: romântica, trágica, engraçada…, elas são compostas por elencos de personagens (pessoas) que estão ao nosso redor ou mesmo em nosso imaginário.

No livro “Do que é feito o pensamento”, Steven Pinker relata sobre as complicadas relações da linguagem e outros símbolos que formam nossa rede de pensamento. A linguagem comandando nosso modo de ser. Nos dizeres do autor:

Nossas palavras compõem nossa identidade social tanto quanto nossa aparência e nosso comportamento, portanto uma trama de equívocos de identidade desnuda algumas das maneiras com as quais tentamos encobrir nossas intenções na língua” (p. 425).

Desse modo, nós fazemos jogos na vida: jogos de identidades, jogos de palavras, jogos de interpretações e múltiplos outros jogos existentes. “Somos jogadores natos”.

Podemos entender boa parte de nossas reações, do nosso modo de ser, através das intricadas maneiras que usamos a linguagem. Nós conseguimos nos comunicar com os outros, mesmo sem saber sua língua materna. Conseguimos sentir ódio por algo que não está diretamente relacionado com nossa vida. Conseguimos sentir ternura por coisas que estão distantes, mas que nos tocam por estarem tão próximas de nossa intimidade.

Nosso modo emocional de ser implica na necessidade de manter contato, isto é, de ter outros personagens para compor nossa trama na vida. Afinal, somos testemunhas das alegrias, dos sofrimentos dos outros e damos significado a isso, significados esses que nem sempre se coadunam com a realidade do outro. Por exemplo, o terapeuta Leahy (2008) refletindo sobre um trecho do filósofo e romancista Unamuno (1921-1990) nos ajuda a pensar sobre o domínio da interpretação racional no pensamento atual. O trecho é o seguinte:

um jovem homem, caminhando pela estrada, encontra um velho sentado à beira dela chorando. Ele diz: “senhor, por que choras?”. O velho respondeu: “meu filho morreu. Eu choro pela morte de meu filho”. O jovem na sua racionalidade, responde: “mas chorar não ajuda em nada. Seu filho está morto”. E o velho responde: “eu choro exatamente porque chorar não ajuda em nada. Nós devemos aprender como lamentar pela epidemia, não apenas curá-la.

Esta passagem nos leva a refletir sobre a importância do reconhecimento do outro, de seu sentimento em relação às coisas, para o entendimento de sua dor. O jovem da passagem simplesmente foi taxativo: não adianta chorar, ele está morto; na sua razão ele não está errado, mas impossibilitado de compreender e de se colocar no lugar do outro, de ser empático.

Nós passamos a nos conhecer melhor quando conseguimos reconhecer o outro como parte de nós mesmos, não porque somos iguais, mas justamente por nossas diferenças individuais. Desse modo, nas nossas experiências de vida em relação ao trágico, ao horrível, sentimo-nos consolados quando encontramos alguém que “entende, ou pelo menos, está tentando entender a nossa dor” (Leahy, 2008).

Afinal, a resposta para a questão: Quem sou eu?, é interligada à questão: Quem é o outro?