“O dedo podre”

“O dedo podre”

Lissia Ana Basso,
psicóloga da Wainer Psicologia Cognitiva

Pensar sobre a condição atual do seu estado civil e/ou status de relacionamento pode vir acompanhado de uma fisgadinha desconfortável. Afinal, quantos desastres já aconteceram na vida afetivo-amorosa. Quando falo em status de relacionamento não refiro ao que as pessoas informam nas redes sociais ou aquele simbolizado através de um anel prateado ou dourado.

É refletir sobre o que significa esse estar com “tal” status. E mais além, o que representa para cada um, a possível fisgadinha ao lembrar do status atual.

Como é difícil se relacionar. Como é difícil ter uma pessoa para fazer planos, escolher os nomes dos filhos e de repente, passar o resto da vida juntos. Por que isso é tão difícil? É necessário sofrer para ter alguém especial? É preciso aceitar a pessoa que chega de repente e se adaptar a ela, deixando de lado os planos pessoais porque é isso que conta, ‘ter’ alguém?

Muitos já falaram ou escutaram: “eu só posso ter o dedo podre, não é possível” e ainda “pela décima vez estou vivendo a mesma coisa”.

Vamos pensar juntos. Será que viver várias decepções amorosas é ‘normal’? Passar por desilusões amorosas e não se dar por conta do que está por trás do funcionamento que vou chamar de “dedo podre”, é muito comum. Mais do que gostaríamos, com certeza.

Relatos do tipo “ela era tão bacana, tão linda e tão encantadora, mas ela estava indo morar em outra cidade”, ou então “ele era bonito, culto, carinhoso e muito divertido, mas ele recém tinha saído de um relacionamento”, e “ela era sensacional, uma pessoa do bem que me apaixonei, mas ela não sabia o que queria para a vida dela e estava com receio de se machucar”. Esses exemplos ilustram o mesmo padrão de funcionamento do tal “dedo podre”. As pessoas que os deixaram não estavam disponíveis para investir num relacionamento. Ou seja, o dedo podre atraia pessoas magníficas, mas indisponíveis. Logo, após o enamoramento, o coração inunda de tristeza e desesperança.

Se não identificar a razão de se relacionar com pessoas indisponíveis, nem ter o entendimento acerca desse padrão, os resultados sempre serão os mesmos. Não adianta eu plantar laranjas e esperar colher mangas.

Antes de escolher como reagir diante de determinados acontecimentos, as lembranças, memórias e emoções que foram guardadas ao longo da vida são consultadas. Algumas das vivências parecem estar vivas dentro de cada um, mesmo que muitas informações não são conscientes, elas têm forte influência sobre as reações. É possível que as compreensões dos acontecimentos foram registradas desde muito cedo de uma maneira distorcida. É possível que houveram eventos estressores significativos. É possível também, que as necessidades emocionais foram atendidas e satisfeitas. É possível um pouco de cada. As experiências iniciais são fundamentais nas escolhas. São elas que comandam o padrão de funcionamento “dedo podre”. A presença fisgadinha, nada mais é que a confirmação do comando em ação.

E como tirar a fisgadinha de cena? A terapia focada nos esquemas possui antídotos que enfraquecem a disfuncionalidade do “dedo podre”. Para isso, é necessário avaliar, identificar, ressignificar o entendimento do conteúdo armazenado ainda lá na infância e após a reparação, possa construir funcionamentos adaptativos, coerentes com o objetivo de ter uma relação saudável e construtiva.