A tirania dos deveria

A tirania dos deveria

Sarah Edelman

Uma característica que muitas crenças irracionais têm em comum é o fato de serem absolutistas. Em outras palavras: acreditamos que as coisas “devem” ou “têm de” ser de determinado modo, em vez de apenas desejar ou preferir que sejam assim. Ellis chamou essa falta de flexibilidade de “exigência”, pois mentalmente exigimos que certas coisas devam ou não devam acontecer. Outros referem-se a esse tipo de pensamento como tirania dos deveres – termo cunhado pela primeira vez pela psiquiatra americana Karen Horney, em 1939. Deveres são as regras ou crenças que mantemos sobre a forma como deveriam ser as coisas. Alguns deveres concentram-se no comportamento e no desempenho da própria pessoa, e outros no modo como a pessoa acredita que os outros devem se comportar e como o mundo deve ser. Claro, nem todos têm muitos deveres nesse sentido, mas a maioria tem algumas crenças inflexíveis.

Vários dos seguintes argumentos deixam as pessoas em apuros. Consegue identificar algum que o faz sentir-se mal, às vezes?

Devo sempre fazer uma tarefa perfeita.

Jamais devo cometer erros.

Devo ser sempre produtivo no uso de meu tempo.

Minha vida deve ser fácil e livre de incômodos.

Devo ser sempre tratado de forma justa.

Devo sempre ter o controle dos acontecimentos.

As pessoas devem sempre fazer o que é “certo”.

As pessoas devem gostar de mim e me aprovar.

Devo ser magro, jovem e atraente.

Devo ser competente e eficaz em tudo o que faço.

Eu deveria estar fazendo e realizando mais do que estou.

Devo ser sempre totalmente independente.

Devo ser sempre positivo, brilhante e animado.

Devo ser casado ou ter um relacionamento sério.

Devo ter uma família harmoniosa, amorosa, que me apoie.

Devo ser um pai ou mãe perfeita.

Devo ser sexy e ter uma libido alta.

Eu deveria estar trabalhando.

Devo ter um emprego de alto status.

Deveria ganhar muito dinheiro.

Devo ser uma companhia espirituosa, interessante e divertida.

Devo ser como as outras pessoas.

Eu deveria ter montes de amigos.

Eu deveria ser a pessoa mais inteligente e talentosa de todas.

Devo sempre dizer “sim” aos pedidos dos outros.

Jamais devo ser medroso ou inseguro.

Essas crenças podem nos tornar infelizes porque nem sempre as experiências de vida correspondem a elas. Por exemplo, a crença na ideia de que “todos devem gostar de mim e aprovar minhas atitudes” criará problemas quando encontrarmos alguém que não parece gostar de nós. Talvez não sejamos tão jovens ou magros como gostaríamos, nem tenhamos em emprego muito bem remunerado, nem um casamento feliz. E tampouco sejamos inteligentes, espirituosos e interessantes, como almejamos. Quanto maior a intensidade da crença de uma pessoa em que algo não deveria ser como é, maior a probabilidade de que ela se atormente.

Mais do que o conteúdo, é a rigidez das crenças que a torna infeliz. Crenças não constituem um problema, quando adotadas como preferências. Você não se transtornará infeliz se apenas desejar sucesso profissional, boas relações, independência ou uma vida confortável, desde que reconheça que tudo não deva ser desse jeito. Também é perfeitamente razoável preferir que as pessoas gostem da gente, façam o que julgamos certo e nos tratem de forma justa, contanto que sejamos flexíveis o bastante para aceitar que nem sempre será assim. A vida nos desafia constantemente a sermos flexíveis. Quando alguma circunstância não se revela como gostaríamos, podemos nos sentir infelizes por completo ao exigirmos que isso não houvesse acontecido ou preferir pensar de uma modo mais flexível.

Nota de cautela – As pessoas, com frequência, põem muito mais ênfase nas palavras faladas do que no sentido implícito delas. Apenas eliminar do seu vocabulário o uso das palavras “devo” ou “preciso” não o torna um pensador flexível. O que importa não são as palavras que empregamos, mas as crenças às quais nos apegamos. Ser flexível exige que mudemos nossas cognições – não apenas o vocabulário.